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Ofendendo os consumidores. Um manual.

Início da tarde de um sábado, sol a pino. Você termina seu almoço despreocupado, levanta-se da pequena mesa de madeira encostada à janela da sua cozinha. O destino é a pequena lata de lixo que fica próximo à pia, nela você deposita as sobras orgânicas do seu prato e também um copo descartável.

No mesmo momento, um bater de pesadas botas militares contra a porta irrompe sua cozinha. Green Police, mãos ao alto. Você está preso por agredir o ecossistema, garoto. Grita o homem troncudo de uniforme verde, que possivelmente o observara pela janela.

Foi essa a história absurda, bem humorada, e leve que a montadora alemã Audi usou para contar aos 106,5 milhões de espectadores do SuperBowl deste ano sobre o seu novo Audi A3 TDI® Clean Diesel, ganhador do título carro verde do ano por sua performance ecologicamente responsável.

Após o SuperBowl, a Green Police pode ser vista em seu canal oficial no Youtube, onde há um desafio interativo, além de informações sobre as polícias verdes da vida real – muito mais contidas – e o caráter satírico da Green Police do filme.

A página exibe textos como “Nós protegemos e conservamos a terra e defendemos a mãe natureza”.  “Eles (os policiais verdes) não estão aqui para julgar, meramente para guiar os consumidores em suas decisões”.

Demonstrando simpatia, a Audi, reafirma o que já é inevitável na investida das marcas nas redes sociais: “Nós o encorajamos a fazer comentários e afirmar sua opinião, seja ela positiva ou negativa”.

Gostou da ação? Vejamos alguns dos comentários:

Como muitas formas de entretenimento, existem, no mínimo dois níveis para este anúncio:
O nível consciente de ser um olhar bem humorado para o aquecimento global e a propaganda automobilística.
E a mensagem subconsciente, que pretende acostumar as pessoas com a interferência policial nos afazeres domésticos.
Isso é conhecido como “Predictive Programming”
Enquanto você observa a interferência policial ser promovida em “histórias cômicas” na TV e no rádio, em vários países há realmente serviços policiais se envolvendo na vida das pessoas de uma forma que muitos julgariam inaceitável

F****-se Eco-nazi. Eu vendi meu Audi A4 por causa disso, e eu me recuso a ter um Audi agora. P**** de mentira de aquecimento global.

Desde quando uma fabricante de carro pode ditar uma política pública? Fascismo? Alguém?

Ninguém me diz como eu devo viver em minha própria casa, eu nunca uso lâmpadas fluorescentes tóxicas, AUDI é propriedade de uma companhia fascista, dissimulada e maníaca por controle. Deem a p**** de um fora daqui seus lixos verdes e tolos

Ainda que, numericamente ínfimos se comparados ao total de pessoas atingidas pela mensagem (são 430 comentários no canal até o momento), grande parte deles são desfavoráveis à marca e mostram um descontento com a política da companhia e a piada policial de seu anúncio.

Nem todos encararam com humor a sugestão de uma invasão policial à vida privada e, juntaram o desagrado desta possibilidade com uma evidente paranóia conspiratória envolvendo a marca alemã e o histórico militar do seu país de origem.

Como já disse em outro post, a 4ª lei de Newton é: existe sempre alguém que não ri da piada. Se uma má interpretação de um diálogo já pode resultar em ofensa, imagina quando uma marca se comunica com quase 107 milhões de pessoas. O que era para ser simpático e bem humorado corre o risco de ganhar incontroláveis conotações tão numerosas quanto a audiência do SuperBowl.

Assim como no Brasil existe o CONAR, o PROCON e o Código de Defesa do Consumidor, nos Estados Unidos existe o Federal Trade Comission, responsável, entre outras atribulações, por proteger o consumidor de possíveis abusos e ofensas que possam ser dirigidas a eles pelo conteúdo publicitário. Igualmente ao nosso CONAR, basta a reclamação de um indivíduo para que se abra um processo de apuração do caso.

Acontece que, talvez por inconsistência da queixa, nem sempre o consumidor ofendido busca os meios convencionais para expressar a sua indignação com uma propaganda abusiva, enganosa, ou mesmo com algum aspecto particular da comunicação de uma marca.

Constantemente, o direito de expressão do consumidor é exercido através das redes sociais. Quem não lembra do misterioso viral que condenava a durabilidade das motos Dafra, entitulado “Dafra - Você por cima da M****? Ou das comunidades do Orkut criadas por consumidores frustrados para relatar as suas agruras com promoções das operadoras de celular? Ainda, a reação de certa camada da população feminina aos comerciais sexistas de cerveja.

A grande dúvida que paira a mente do anunciante é como lidar com esta propaganda às avessas que é feita pelos consumidores frustrados? Como minimizar a ofensa? Como fugir do boca a boca negativo que pode ter impactos em sua receita?

Algo é certo, ao menos para a crescente geração que se envolve ativamente nas redes a ponto de participar de fóruns de discussão ou produzir e disponibilizar conteúdo, a decisão arbitrária de solicitar ao Youtube a retirada de vídeos, saída mais utilizada pelas corporações, é encarada como uma promoção da censura e vai de encontro à liberdade de expressão que está no cerne do pensamento desta geração. Vale portanto, nos casos que envolvem este perfil de consumidor, pensar um pouco mais antes de se posicionar como ditador.

Respondendo a algumas destas perguntas, o autor de livros de marketing e presidente da escola de negócios Wizard Academy, Roy Williams afirma: “Ponha um anúncio num tribunal e cada membro do juri irá julgar dois aspectos: Esse anúncio pode ofender alguém? Ele é divertido?”

Como consequência disto, grande parte dos anúncios não é escrita para persuadir, e sim para não ofender.

Ainda para Williams, anúncios que causam impacto são como nitroglicerina: cuide deles da maneira correta, e eles moverão montanhas por vocês, seja descuidado e eles podem explodir o seu negócio.

O que se percebe, portanto é que, para evitar repercussão negativa, não se deve temer a mensagem e, por consequência disto, evitar qualquer conteúdo de impacto, afinal, impacto é um forte elemento da persuasão. Sem ele, muitas propagandas seriam inócuas. Não se esqueça de que grandes audiências podem gerar numerosas interpretações da sua mensagem, algumas desfavoráveis, outras ofensivas, outras ainda completamente sem fundamento.

É preciso, por fim, ter coragem de afirmar alguma coisa, e ter a mesma coragem na hora de escolher entre retroceder e pedir desculpas, ou não fazer nada.

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