neverstops

Your awesome Tagline

Posts tagged marketing

0 notes &

O meu é maior que o seu.

Existe, certamente, uma relação inversa entre a dimensão de um estado e a necessidade de auto-afirmação da sua população. Uma tentativa de compensar o modesto tamanho.

Quer um exemplo? O fato em questão se consagrou acontecimento tradicional no calendário sergipano: a época do vestibular. Num estado com as nossas proporções e perspectivas, o fascínio pela aprovação no exame resulta, via de regra, em peças publicitárias de uma fraqueza argumentativa reprovável, repleta de superlativos, engendro e má fé.

A distorção é tanta que após um passeio pela Ministro Geraldo Barreto Sobral, um indivíduo exposto aos incontáveis outdoors que margeiam a avenida é incapaz de afirmar qual colégio da capital obteve melhor índice de aprovação.

As informações, num Arial achatado, caixa alta, gritam mensagens indecifráveis como “28 alunos entre os dez primeiros lugares de 12 cursos” ou mesmo “dois sergipanos melhores colocados na Universidade Federal de Pernambuco”, além das clássicas “X aprovados em Medicina” e “X aprovados em Direito”.

A incoerência não está apenas na equação que é montada para exibir números favoráveis, afinal, encontrar a melhor forma de comunicar um fato é objetivo da publicidade, o absurdo está em tornar essa fórmula tão hermética a ponto de fazê-la não dizer absolutamente nada, ou esconder resultados não tão satisfatórios assim.

Marcelinho chega em casa, corre para o pai e fala: Pai, o professor de matemática disse que eu fui o único aluno da sala a tirar (10 + ((-2) x 5))

Depois de gastar algum tempo com a calculadora, o pai do Marcelinho descobre que vai ter de colocá-lo de castigo.

Será essa prolixidade uma desonesta e auto-afirmativa conduta da mesma cultura que apelidou o salão de bairro de hairstylist e qualquer padaria de delicatessen?

É verdade que a publicidade é um límpido reflexo da cultura ao redor da qual ela se constrói.  O que, possivelmente, explica a obsessão pelo status de carreiras como Direito e Medicina, que beira o desrespeito pelos profissionais de outras áreas.

No mundo ideal, anunciado pelos colégios de Sergipe, você sai de casa todos os dias, dá bom dia ao médico que cuida da segurança do seu condomínio, pega um taxi dirigido por um advogado que leva você ao seu trabalho. Nem precisa lembrar que você é médico e que as pessoas que você atende, todas advogadas, tem duas atividades básicas em suas vidas: cuidar da saúde e processar umas as outras. Surreal, não acha?

Uma análise um pouco mais atenta ao comportamento deflagrado pelo marketing destas instituições revela um problema ainda mais sério que a arrogância.

Ao tratar o ensino como um produto de varejo, vendendo números, o empresário espera um retorno de investimento imediato, que acaba acontecendo graças à proximidade do momento de matrícula e a própria natureza deste tipo de apelo publicitário.

Ao mesmo tempo, este empresário subestima o poder da comunicação institucional, de viés emocional, na construção de valores para sua marca, como confiança, segurança, preocupação com o lado humano.

Esse segundo tipo de comunicação é desprezada porque seus resultados, embora duradouros, só são notados a longo prazo. O que não deveria ser um empecilho. Para educar um cidadão, investe-se tempo e dinheiro por mais de uma década. Reconhecer o valor do investimento a longo prazo deveria fazer parte da realidade de um empresário do setor.

O impacto deste comportamento para o mercado e para a cultura do estado é uma questão pertinente para os 275 aprovados nos cursos de publicidade e psicologia das duas maiores faculdades de Sergipe.

Filed under vestibular aracaju resultado propaganda publicidade complexo de inferioridade medicina direito aprovados psicologia marketing varejo institucional curto prazo longo prazo sergipe outdoor Jardins coesi master amadeus ideal coc arqui salvador

1 note &

Marketing para indies.

Como publicitário e entusiasta de homestudios e gravações caseiras, eu não poderia deixar isto passar em branco.

Com 60450 inscrições e quase 1 milhão de exibições do seu canal no Youtube até o momento, o Pomplamoose – palavra francesa para toranja – é uma dupla californiana formada por um casal de moderninhos, Jack Conte e Nataly Dawn.

Jack é multi-instrumentista, compositor e filmmaker que, segundo o Wikipedia, vive da venda de mp3 na rede; Nataly já morou na França, Bélgica e voltou para a California para se graduar em arte e literatura francesa. O casal grava vídeos musicais e coloca na rede, seguindo dois critérios que, por falta de recursos sofisticados de gravação e edição, acabam sendo o padrão dos vídeos amadores que nos acostumamos a assistir:

1 - O que você vê é o que você escuta (não há sincronia para voz ou para instrumentos na pós-produção.)

2 - Se você escuta algo, irá vê-lo sendo gravado em algum momento. (Não há sons escondidos.)

Entretanto, ao contrário das outras filmagens amadoras, os vídeos do Pomplamoose não são gravados com a webcam, ou usando o recurso de vídeo de uma câmera fotográfica. O que nós vemos são filmagens em alta definição, captada de diversos ângulos, o que, levando em conta os dois critérios de gravação, me faz acreditar que existe mais de uma câmera.

Em vez de um quarto qualquer, os vídeos são feitos em um homestudio. E, ao contrário da configuração de maior parte dos estúdios caseiros que eu conheço, em que poucos instrumentos disputam o espaço com simulações,  bateria eletrônica, piano digital e toda uma série de programas de computador que fazem as vezes de instrumentos caros, o Pomplamoose realmente UTILIZA os instrumentos caros, de verdade, sem simulação. São pianos verticais, pianos elétricos, orgãos, bateria e muitos microfones, que ficam empilhados no pequeno quarto, mas que são mais caros e soam muito melhor que muitos pequenos estúdios que eu conheço.

A dupla, que extrai uma sonoridade profissional de um ambiente que parece ser bem amador – como denuncia o colchão usado como isolamento acústico em uma das paredes –, possui um organizado canal no Youtube, vende suas músicas no iTunes, dispõe o material para audição e venda no myspace e permite o download gratuito das versões que fazem de outros artistas.

Nos vídeos, tudo parece bastante elaborado, desde a edição que é quase o making-off das gravações, e nos mata a curiosidade em vê-los utilizando instrumentos exóticos, até as pequenas histórias que eles protagonizam ao fim dos vídeos.

Em uma delas, a irmã do Jack entra no quarto ao fim da gravação e ele aproveita para fazer merchandising dos sabonetes caseiros que ela faz, em outro momento, é possível ver o casal jantando no carpete do quarto-estúdio, Jack cochilando no mesmo carpete, ou os dois comemorando quando a Nataly concluiu os estudos.

As brincadeirinhas entre o casal causam a empatia de qualquer indie simpatizante do lema “faça você mesmo”. Em uma destas gracinhas, o pirulito do bumbo da bateria está vestido com um fantoche dos Muppets.

Eis que uma marca é bastante presente nos vídeos, nos processadores utilizados pelos músicos, em algumas camisetas que o Jack usa, em algum equipamento em close: a Electro-Harmonix.

A Electro-Harmonix é uma empresa novaiorquina fabricante de processadores eletrônicos para som. Seus produtos mais famosos são os pedais de efeitos para guitarra.

Equipamentos da Electro-Harmonix

A fabricante e os garotos do Pomplamoose tem muito em comum. A primeira desenvolve produtos com aspecto propositadamente caseiro (entre os músicos, há um fascínio por essa estética), a segunda, a dupla, faz o seu som de forma caseira utilizando os processadores da Harmonix, que estão sempre legíveis na câmera, de frente para ela. A primeira cria os efeitos de som mais ricos e procurados durante as décadas de 70 e 90, a segunda se utiliza largamente destes efeitos para criar uma sonoridade criativa para suas músicas.

Dai surge a pergunta:

Não seria o Pomplamoose uma bela ação da Electro-Harmonix para atrair uma nova geração de músicos?

Uma ação extremamente adequada e pertinente que criou praticamente uma web-história. Um duo formado por um jovem produtor e cineasta, que namora uma garota de penteado hipster, estudante de arte e literatura francesa.

Os dois fazem vídeos para o Youtube, se vestem como a maior parte dos garotos que tocam em bandas indie hoje em dia, fazem piadas com as mesmas coisas, ficam famosos fazendo versões de músicas bastante conhecidas, e utilizam instrumentos raríssimos e igualmente caros, com os quais todo músico de apartamento sonha, mas só teve contato através de uma simulação feita em computador.

Além disso, o público é jogado para dentro da história, fica sabendo quando a Nataly terminou os estudos, quando eles vão fazer os primeiros shows da dupla, participa de concursos para criar ilustrações para a camiseta e para a capa do disco da banda.

Pronto. Identificação completa com um segmento do mercado, placement de marca e de produto da Electro Harmonix.

O consumidor deste segmento é bastante exigente e está acostumando a pesquisar exaustivamente, ler o que os outros consumidores escreveram a respeito de um produto antes de comprá-lo, ir atrás de críticas e, olha só, é possível encontrar vários vídeos do Jack Conte fazendo reviews dos produtos da Electro-Harmonix.

Se for uma ação de marketing, ou mesmo um patrocínio, a abordagem foi muito competente. Se não foi, ainda está em tempo de ser.

Filed under indie marketing pomplamoose homestudio electro-harmonix electroharmonix harmonix electro placement ação ação publicitária viral Jack Conte Nataly Dawn marketing pedais faça você mesmo publicidade criatividade propaganda Muppets instrumentos exóticos youtube gravações caseiras