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É a vaidade, Wlad.
Há quatro décadas, no Mercado Ver-o-peso, em Belém do Pará, Wladimir vendia creme dental e cosméticos naturais. Saltando entre as barracas, abordando os passantes com gracejos vendedores, o pequeno paraense de seis anos não desconfiava que toda a sua vida seria marcada por um só palavra: a vaidade.
Vaidade terrena e Salvação divina – Hans Memling
Considerada o mais grave dos sete pecados capitais, a vaidade, por definição, é o desejo de atrair a admiração das outras pessoas. Para este fim, a pessoa vaidosa exibe seus pontos positivos, ao mesmo tempo em que esconde seus pontos negativos.
Sentiu-se identificado de alguma maneira? Não precisa entrar em desespero. O que, no século XIV, lhe garantiria uma moradia eterna no calor do inferno, lhe renderá um elogio nas movimentadas ruas do século XXI. A vaidade, relegada levianamente a um pecado cristão, aprendeu, com os anos, que ela sempre estivera presente na vida das pessoas, sob outro nome, que escondia o seu lado negativo e reforçava o seu lado positivo. Este nome era a “beleza”, e em sua defesa, artifícios foram criados para que o padrão estético estivesse ao alcance de quem o buscasse.
Desde o surgimento da burguesia que as nutridas famílias de italianos narigudos encomendavam quadros aos pintores. Na surdina, pediam para que o restratista fosse benevolente no momento em que o pincel marcava seus desarranjos. As obras-primas chegaram até nossos tempos corrigidas e aprovadas pelo olhar daqueles que não gostariam de imortalizar nenhum olhar vesgo.
Inocentada a vaidade, varrem-se as imperfeições com bases faciais, batons, lápis corretivos, tinturas de cabelo, tratamentos clínicos, academia, e cosméticos parecidos com os que o Wladimir vendia lá no norte do país. O próprio Wladimir, mais tarde, quando se tornara um conhecido cantor de brega, tingia mechas do seu cabelo e malhava o bíceps em busca de um físico impecável.
O sucesso e aprovação popular em seu estado fizeram do artista deputado federal pelo PMDB. Numa campanha eleitoral, todo candidato deve ir em público apontar seus pontos fortes e fazer de tudo para que seus pontos fracos não sejam percebidos. Depois das eleições, o Wladimir não parou mais de corrigir suas imperfeições.
Para os desagrados que os cremes não resolvem, a ciência tem seus próprios pincéis, a cirurgia plástica. Graças a ela, milhares de pessoas insatisfeitas podem cortar alguns defeitinhos fora. É como o nosso Wlad costuma dizer: “O povo paraense é muito vaidoso, se as mamas tiverem embaixo, a mulher coloca logo silicone”. E o deputado não fala sem conhecimento de causa. Ele também já fez umas pequenas cirurgias para corrigir o nariz e as covinhas do seu sorriso de artista.
Não o culpo. Faz parte do nosso modelo sociocultural, afinal. A vaidade, ou melhor, a beleza é aspiracional. O ser humano é assim. É a busca por algo melhor em sua aparência, ou mesmo em sua vida, que o impulsiona.
Para não perder o norte, temos nossos arquétipos, nossas referências. As celebridades de Hollywood, as modelos, os jogadores de futebol, as garotas da publicidade. Gente que não é muito diferente da gente, mas que, para virar um modelo a ser seguido, contou com a ajuda de alguém disposto a esconder seus defeitos, exibir suas qualidades e criar um mito. São muitos artifícios à disposição: hipérboles, maquiagem, luzes, truques de câmera, retoques do photoshop. Todos a serviço de criar o inatingível, e nos impulsionar a uma busca constante. Nós criamos os mitos para que eles carreguem o fardo de ser perfeitos e nos sirvam de exemplo.
Desta fato, o deputado estadual Wladimir Costa discorda sem conhecimento de causa. Entre uma declaração como “O Renan Calheiros é um homem sério” e outras, o deputado propôs o projeto de lei 6853/10, que está em análise na Câmara.
A lei quer obrigar os anúncios que trazem fotos manipuladas digitalmente a exibir a mensagem: “Atenção: imagem retocada para alterar a aparência física da pessoa retratada” O texto original da “Lei do Photoshop” prevê multa de até R$50 mil a quem desobedecer. Segundo o deputado, o objetivo é “acabar com a idealização do corpo humano pela publicidade”.
Wladimir Costa, que começou a carreira vendendo cosméticos e cremes dentais e atraiu a admiração dos seus conterrâneos com suas performances de palco, pretende impedir que a propaganda nos “engane” com sorrisos colgate.