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Álbum de Família
Parei de gostar de fotografia aos 10 anos e 1 dia de vida. Por que tanta precisão? Porque foi exatamente no dia do meu aniversário que eu descobri que nada poderia subtrair tanto o espírito de uma festa como a vontade de registrá-la para a posteridade. Tinha ganhado uma pequena boate de presente e, como todas as outras crianças, não queria passar um minuto sequer longe daquelas luzes coloridas.
Acontece que os adultos não se contentavam em assistir. Era preciso registrar e catalogar numa sequência lógica todos os momentos do evento. Mas aqueles spots e globos de luz já não eram uma surpresa inesquecível?
Venho de uma família muito grande. E a maior preocupação das famílias muito grandes é justamente não magoar cada um dos seus membros, embora, inevitavelmente, isso acabe acontecendo. E é esta preocupação que leva aos imensos checklists no Natal, na Páscoa e até mesmo na hora de escolher as lembrancinhas de viagem. Nas festas de aniversários, essa preocupação é o maior vilão da espontaneidade: ninguém pode ficar de fora das fotografias.
Começa, então um germânico processo classificatório. Fotos com as tias solteiras, agora as tias casadas com seus respectivos maridos, agora os netos - sem as namoradas. Tudo catalogado, etiquetado e colocado eficientemente na página certa do álbum. O que não se vê é o custo de não magoar ninguém. O que não percebemos é que enfraquecemos os momentos verdadeiros, aquela hora em que seu avô pensa que é criança de novo e dança com a neta a mais nova música da Katy Perry, o momento em que aquelas duas pessoas que se estranharam no Natal passado sorriem uma para a outra, a hora em que o pequeno - escondido dos pais - descobre o gosto do champanhe, os olhos brilhando da vovó octogenária diante dos fogos de artifício - não muito diferente da criança hipnotizada pelas luzes da boate. Tanta coisa bonita que vai acabar interrompida para que a vovó apareça ao lado do vovô, os netos, todos juntos, mas cada vez mais separados de quem são próximos na vida real. Criamos nos álbuns uma festa paralela, em que a alegria não é bem do jeito que aconteceu, mas é bastante compreensível. Esquecemos da beleza que estava ali, para construir uma outra que, nem de longe, tem o brilho da primeira. A alegria não é compreensível. Precisamos parar de fotografar cartesianamente os nossos “graus de parentescos” e começar a fotografar as belezas que se formam bem na nossa frente durante um par de segundos e, depois, como a explosão de um foguete, desaparecem. Estas sim precisamos capturar para sempre, nem que seja com outra máquina, que trabalha incansavelmente por mais de 80 anos e que nunca revela em negativo.
Estes dois projetos vem pouco a pouco me convencendo de que com o olhar certo, a fotografia consegue capturar a beleza sem invadi-la:
Adam and Halli’s Wedding por Josh Goleman – Estados Unidos









Casamiento Feliz por Roma Lopreste e Carlos Muller - Argentina





